História de Vida

Na infância aprendi conceitos valiosos como companheirismo, lealdade, respeito e solidariedade. Essas lições foram determinantes, tanto para as relações pessoais quanto no trabalho. Compartilho com você alguns dos principais momentos da minha vida.

Origem

Vou começar a contar a história da minha vida explicando a origem do meu nome. Afinal, faço parte de uma dinastia de três gerações de Geraldos, e essa sequência tem uma razão de ser. Gosto desse “causo”, como dizemos lá no interior, porque ele revela muito sobre os princípios que me formaram como indivíduo.

Muito devota de São Gerardo Majella, considerado na Itália como o padroeiro da maternidade, minha avó, Ida, criou essa tradição ao batizar meu pai, seu terceiro filho, o primeiro menino, em homenagem ao santo. Ele se chamava Geraldo José.

Por conta de algumas complicações na gravidez seguinte, minha avó se apegou ainda mais ao padroeiro. Deu certo, e veio o segundo menino da família, que também ganhou Geraldo no nome. Uma pequena variação foi usada para diferenciar as duas crianças. Ficou José Geraldo.

Meu pai e meu tio prosseguiram com a tradição e reforçaram a veneração familiar tanto ao santo quanto à minha avó. Por isso, eu sou Geraldo José Filho; e meu primo, José Geraldo Filho. Quando nasceram meu filho e o filho do meu primo, não houve dúvidas: deu Geraldo José Neto e José Geraldo Neto. Dá pra imaginar a confusão?

Por enquanto o ciclo está rompido. Até tive esperanças de batizar uma das minhas netas como Geralda, mas a ideia não emplacou. Como ainda espero a chegada de mais netos, quem sabe?

O legado de minha avó

Para mim, essa história representa a estrutura familiar construída pela minha avó e me ensinou muito sobre companheirismo, lealdade, respeito e solidariedade.

A fé, sempre presente nas rotinas da casa, também acompanhou toda a minha vida e me ajudou a encontrar paz e serenidade para tomar decisões difíceis; ofereceu esperança e conforto nos momentos mais dolorosos; coragem e perseverança para superar desafios.

Quando eu nasci, em 7 de novembro de 1952, o mundo ainda se recuperava dos traumas econômicos, sociais e morais da Segunda Guerra Mundial e dos horrores do nazismo.

A expectativa de vida entre os homens, em São Paulo, estava próxima dos 50 anos (hoje é 78), a mortalidade infantil era de 122 óbitos em cada mil nascimentos (atualmente está próximo de 13), metade dos brasileiros eram analfabetos (atualmente, são 7%) e a limitação de recursos era uma regra para quase todas as famílias.

A vida, de fato, não era fácil nos anos 50, mas as dificuldades eram superadas com unidade familiar, fé em Deus e muito trabalho. Esse é o verdadeiro legado deixado pela minha avó.

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Infância no campo

Por outro lado, esse período apresentou avanços tecnológicos e mudanças de paradigmas que resultaram em diversos movimentos e revoluções culturais na década seguinte.

Os anos 50 também ficaram marcados pelo surgimento do rádio portátil e das primeiras experiências com computadores, entre outras inovações.

No Brasil, a industrialização incentivava a migração do campo para as cidades. Era o início do processo que geraria, anos mais tarde, grandes aglomerados urbanos e cidades gigantescas, como São Paulo.

Embora vivendo esse cenário transformador, minha infância transcorreu quase como a de qualquer outra criança da época. Fui criado em uma fazenda, onde meu pai trabalhava como veterinário.

Meus dias eram ocupados entre a escola, as brincadeiras com meus irmãos, primos e filhos de outros funcionários da propriedade, além de algumas tarefas comuns à vida no campo, como cuidar da horta e dos animais. Minha preferida era na granja.

Aos nove anos, por conta própria, comecei a vender os ovos produzidos pelas “irmãs galinhas”, como meu pai se referia aos bichos.

Meu pai apoiou a iniciativa empreendedora, porém estava sempre atento ao meu comportamento. Ele não permitia desperdícios, era totalmente contrário à ostentação e gastos desnecessários. Em sua visão, a solidariedade e o respeito ao próximo eram valores fundamentais a qualquer pessoa.

“Para que ter duas geladeiras, duas mesas ou duas batedeiras? Não vamos bater bolo duas vezes. Portanto, se tivermos dois objetos com a mesma serventia, devemos doar um a quem não tem”, dizia.

A grande perda

A vida baseada em brincadeiras e aprendizados seguiu seu curso natural, sem grandes dificuldades, até eu completar 10 anos. Mas uma mudança brusca rompeu o ciclo e me apresentou a uma dor que eu nem imaginava existir.

Minha mãe, Myriam Penteado Rodrigues Alckmin, que tinha a saúde fragilizada desde a juventude em função de uma bronquite asmática, faleceu em junho de 1963.

A perda foi um golpe duro para toda a família, e levou tempo para ser assimilada. Minha mãe, que foi professora, era o alicerce do lar, muito presente na vida dos filhos e fonte inesgotável de carinho. Sua ausência deixou um vazio eterno em todos nós.

A superação aconteceu aos poucos e foi possível graças aos ensinamentos deixados pela minha avó: apoio incondicional da família, fé em Deus e muita perseverança.

Naturalmente me aproximei ainda mais do meu pai. Ele fez de tudo para suprir as necessidades dos filhos e se esforçava para ser ao mesmo tempo pai e mãe.

Além disso, contávamos sempre com a presença da Tereza Faria Santos, a Nhá, que foi minha babá desde meus primeiros meses e se tornou uma das grandes amigas que tive na vida.

Meus tios, tias e primos também não deixaram espaços para a solidão e nos cercaram de todos os cuidados necessários para enfrentarmos aquele período difícil.

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Estudar para atenuar

O tempo amenizou a dor. Ficaram somente lembranças e saudades. Encontrei nos estudos uma forma de me adaptar à nova realidade e tomei gosto pela coisa. Na adolescência eu dava aulas particulares de química e biologia. Embora nunca tenha faltado nada em casa, nós não levávamos uma vida abastada. Por isso, decidi trabalhar e guardar dinheiro para a faculdade. Naquela época eu já havia decidido ser médico.

Em 1970 fui aprovado no vestibular da Faculdade de Medicina de Taubaté. A chegada à universidade, além de representar a realização dos meus projetos pessoais, marcou o início de um novo período de vida e me colocou em contato com meu próprio destino.

Liberdade e democracia

O final dos anos 60 e início dos 70 foi transformador no mundo todo. Mobilizações de estudantes, mulheres, negros e homossexuais aconteciam em diversos países exigindo mais liberdade, respeito às individualidades, o fim das desigualdades e da intolerância.

No Brasil, a mobilização popular tinha um foco diferente: a ditadura. Em 1972, o ambiente universitário fervilhava com a proximidade das eleições municipais. O governo militar só permitia o voto direto para cargos legislativos ou para prefeito em pequenos municípios, e essa amostra de democracia era suficiente para transformar períodos eleitorais em uma grande festa.

Apenas dois partidos poderiam disputar as eleições: Arena, o partido oficial do governo militar; e MDB (Movimento Democrático Brasileiro), formado pelas principais lideranças de oposição ao autoritarismo da época. Em Pindamonhangaba, o partido buscava jovens para disputar as eleições defendendo a bandeira da democracia. E por indicação de um amigo da faculdade, fui convidado a concorrer ao cargo de vereador.

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Primeira eleição

Além da medicina, eu também gostava de estudar sobre política. Quando veio a proposta, aceitei imediatamente. Mesmo sem nenhuma experiência anterior, fui eleito pela primeira vez, aos 19 anos, com 1.447 votos, o que representava mais de 10% do eleitorado da cidade. O resultado me credenciou, ainda, a exercer a presidência da Câmara Municipal por dois anos consecutivos: em 1973 e 1974.

Nesse período, eu conciliava os estudos na faculdade com o mandato legislativo e dava aulas para reforçar o orçamento. Foram tempos de muito trabalho e grande satisfação pessoal. Meu pai, como sempre, foi um conselheiro inestimável nessa nova fase. Ele apoiou minha opção sem contestar, e em uma frase me ensinou algo fundamental para a vida que eu havia escolhido: “Tenha uma vida modesta. Se quiser ganhar dinheiro, vá trabalhar no setor privado. Vida pública é para servir as pessoas”.

Prefeito mais jovem do Brasil

Em 1976, venci as eleições para a prefeitura de Pinda. Aos 24 anos, portanto, eu era o mais jovem prefeito eleito no Brasil. Além disso, a votação maciça do MDB em todo o país mudou os rumos da política. Uma nova geração de democratas ganhava espaço nas prefeituras e câmaras municipais, somando-se aos deputados e senadores eleitos pelo partido dois anos antes. Estavam dados os primeiros passos para o fim da ditadura e a volta da democracia.

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Amor e família

Minha eleição para o cargo de prefeito também coincidiu com o período em que se desenhava minha maior e mais importante realização pessoal. Nessa época eu namorava Maria Lúcia, a Lu, minha grande amiga e companheira. Desde o princípio sabíamos que aquela relação era para sempre. Depois de cinco anos de namoro apaixonado, nos casamos no dia 15 de março de 1979.

Ainda durante o mandato de prefeito, que era de seis anos, nós começamos a formar nossa própria família. Sophia nasceu em 1980; Geraldinho, em 1981. Três anos mais tarde, nossa equipe estava completa com a chegada do Thomaz. Foram anos inesquecíveis.

Viva a democracia

Ao final da minha gestão na prefeitura de Pinda, o Brasil dava mais um passo importante rumo à redemocratização. Em 1982 ocorreram as primeiras eleições livres para governador desde o golpe militar de 1964. Fui eleito deputado estadual com mais de 96 mil votos e, com uma honra enorme, comecei a construir uma história ao lado de figuras importantes da política nacional, como Franco Montoro, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, entre outros.

Dois anos depois, esse grupo liderou o movimento das Diretas e levou multidões às ruas do país para pedir o fim do autoritarismo, como no histórico encontro na Praça da Sé, em São Paulo. Em 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente. A votação foi indireta, mas o resultado representava a vontade da grande maioria dos brasileiros. Além disso, essa eleição encerrou oficialmente a ditadura militar.

Constituição Cidadã e o PSDB

Em 1986 veio mais uma vitória importante. Conquistei uma cadeira na Câmara dos Deputados como o quarto mais votado do PMDB. Durante esse mandato, fui escolhido para ser o vice-líder do partido na Assembléia Nacional que formulou a Constituição Cidadã de 1988.

A essa altura eu já fazia parte de um grupo político consolidado, muito crítico da situação política do Brasil e cheio de ideias para construir um país melhor. Ainda em 1988, ao lado de personalidades como Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Mota, José Serra, Teotônio Vilela e Pimenta da Veiga, entre outros, fundamos o PSDB. O partido surgia com uma visão nova da política, pregava práticas inovadoras de gestão e, fundamentalmente, defendia a democracia. Em 1990, fui reeleito deputado federal pelo novo partido.

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Transformando São Paulo

Depois de dois mandatos na Câmara dos Deputados, fui chamado para compor a chapa do PSDB nas eleições estaduais de 1994. Fui candidato a vice-governador de Mário Covas, uma das lideranças políticas mais admiradas e respeitadas do Brasil.

Vencemos as eleições e, em janeiro de 1995, iniciamos uma gestão que se tornaria histórica. Encontramos um estado praticamente falido, sem dinheiro até para pagar os servidores. Diante desse cenário, arregaçamos as mangas e trabalhamos muito. Cortamos todos os excessos, reduzimos as despesas e equilibramos as contas públicas. Fizemos em São Paulo o que muitos diziam ser impossível.

Repetimos a parceria vitoriosa nas eleições de 1998 e fomos reeleitos para dar sequência ao projeto que já havia mudado a cara de São Paulo. Apesar da grande vitória, essa campanha foi a mais difícil que fiz na vida. Doutor Geraldo, meu pai, que foi sempre meu guia, meu amigo, minha segurança, nos deixou no dia 6 de junho.

O início do  segundo mandato no governo de São Paulo também foi um período de muita preocupação. Um câncer na bexiga tirou Covas de ação pouco antes da posse. Ele voltou ao governo no meio de janeiro e, apesar da fragilidade física em decorrência do penoso tratamento, continuou tocando o estado com a mesma garra de sempre.

Missão partidária

No ano 2000 fui convocado para mais uma missão partidária importante: disputar a prefeitura de São Paulo. Fiquei em terceiro lugar, mas com um gosto de vitória. Por pouco não fui ao segundo turno, após uma arrancada emocionante na parte final da campanha.

Adeus ao mestre e amigo

O início de 2001, entretanto, foi de tristeza e luto. O câncer voltou a afetar Mário Covas, que faleceu no dia 6 de março. São Paulo e o Brasil perderam um grande líder político, um verdadeiro estadista. Eu perdi um parceiro, mestre e amigo. Completei o mandato aplicando todo o programa elaborado por Covas. No ano seguinte, fui reeleito governador de São Paulo e fechei esse ciclo com quatro anos de uma gestão voltada ao crescimento econômico e às pessoas.

A serviço do Brasil e da democracia

Os bons resultados obtidos como governador me credenciaram a disputar a Presidência da República em 2006. Não venci, mas fiz uma campanha limpa, propositiva e respeitosa, como exige um ambiente realmente democrático. Em 2008 fui convidado pelo PSDB a disputar a prefeitura de São Paulo. Perdi novamente, mas continuei de cabeça erguida, trabalhando pelo partido e pela democracia.

Depois de um período de estudos na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, assumi a Secretaria Estadual de Desenvolvimento de São Paulo em janeiro de 2009. Dois anos depois, fui novamente candidato a governador e tive a honra de ser eleito pelos paulistas no primeiro turno. O resultado se repetiu em 2014 e fui reeleito também no primeiro turno.

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Tristeza infinita

Mas o destino colocou outro duro golpe no caminho da minha família,  justamente nesse período de imensa alegria e orgulho pelo reconhecimento das pessoas ao trabalho feito em São Paulo. Um acidente aéreo vitimou meu filho Thomaz, em abril de 2015.

Superamos mais esse momento difícil com muita fé, união e perseverança, exatamente como ensinou minha avó. A mesma receita que utilizei para cumprir minha missão como governador. E não foi fácil, pois, além das questões emocionais, nosso país mergulhou nas piores crises política e econômica da história. Deixei o cargo com a sensação de dever cumprido, em março de 2018. Apesar de todas as dificuldades, conseguimos avanços em todas as áreas da administração sem comprometer a saúde financeira do estado.

 

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Uma nova esperança

Agora, assumo um novo desafio como candidato a presidente. Estou pronto e muito disposto para empregar toda a minha experiência profissional e de vida na recuperação do Brasil. Com seriedade, muito trabalho e os valores cultivados desde os meus primeiros dias de vida, vamos fazer do nosso país um lugar melhor para se viver.